SINOPSE




Neste romance, Moacir C. Lopes, autor de A ostra e o vento, alia pesquisa histórica à imaginação para reproduzir a luta do marinheiro João Cândido e seus companheiros de motim para se livrar dos maus-tratos sofridos a bordo dos navios da Marinha do Brasil, em movimento de 1910 que ficou conhecido como Revolta da Chibata. Depois de conseguir levantar os mais importantes navios da Esquadra, ameaçar bombardear o Palácio do Catete, então sede da Presidência da República, e outros alvos estratégicos, os marinheiros obtiveram a promessa de que seriam abolidos os castigos desumanos e de que seriam anistiados. Quando devolveram o comando dos navios, foram duramente reprimidos, com fuzilamentos, prisões e outras penas não previstas em lei, numa nova versão de Canudos. Narrativa indispensável para quem se interessa pela história dos movimentos populares no Brasil.



TRECHOS DO LIVRO


Garoto, jamais pretendi entender a natureza das coi-sas e das criaturas. O importante é procurar. Esta é a minha viagem. Não quero sequer entender a mim mesmo, ou me esvaziaria do meu próprio mistério.



Outra preocupação era com os cinco navios de guer-ra norte-americanos fundeados na Baia de Guanabara, os dois da Inglaterra, os dois de Portugal e o francês Duguay-Trouin. Sob a bandeira de representantes diplomáticos, são ponta-de-lança de impérios, sempre e em qualquer recanto de mar, à espreita de vácuos de autoridade de qualquer país para oferecer seus serviços de cooperação, seja do lado do vilão ou do lado da vítima, do invasor ou do invadido, do que se mostrar mais forte no momento. Assim, agiram os norte-americanos na guerra do Acre, oferecendo armas às forças contrárias aos interesses do Brasil, na esperança de sobrar algum pedaço de território para o seu domínio. E na Revolta de 1893, quando cedeu seus navios, oficiais e mari-nheiros mercenários, e ainda utilizou outros navios em mis-são de cordialidade, na Baía de Guanabara, para bombardear os navios revoltosos, numa intervenção branca de apoio à ditadura de Floriano Peixoto, mas antes, como sempre, espe-raram até ver que lado tinha maiores possibilidades de vitória.

Não devemos afrontar esses navios visitantes, desde que mantenham sua neutralidade, foi a instrução de João Cândido a seus colaboradores. Mas vigiem cada movimento.

Às seis da manhã, o Minas Gerais e o Bahia circulam próximos à boca da barra e sinalizam às dezenas de embar-cações pequenas trafegando a sua volta, de um e de outro bordo, com pescadores e curiosos saudando com acenos as guarnições rebeldes, para que se afastem. Na passagem en-tre as fortalezas, ambos os navios abrem fogo com seus ca-nhões médios contra a de Santa Cruz e a de São João, ape-nas para testar a reação. Os tiros caem na água. Deixe eles pensarem que nossa pontaria não é boa.

 




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