SINOPSE

Romance que deu origem ao premiado filme de Walter Lima, Jr., A ostra e o vento. Conta a história do desabrochar sexual de Marcela, uma menina que mora numa ilha e tem como companhia apenas seu pai, um velho e possessivo faroleiro, e um amigo também idoso, Daniel. A aparição do desejo em Marcela coincide com a chegada de um misterioso personagem, que, mesmo sem ser visto, causa a maior reviravolta na ilha. Pequena obra-prima, A ostra e o vento, por sua ousadia e beleza, projetou Moacir C. Lopes como expoente do romance no Brasil e no exterior.
TRECHOS DO LIVRO
Segurou com a mão direita a ponta da faca e forçou-a nas arestas da concha de uma ostra. Só então reparou na resistência para manter-se fechada, e parecia morrer no instante em que sua vida interior era desvendada.
– Cada ostra é uma ilha, não acha, Daniel?
Sua voz pareceu-lhe um simples som a mais adicionado aos outros sons da ilha. Forçou a ponta da faca noutra concha. Alteou mais a voz.
– Os pólipos se agregam, são vizinhos, mas continuam sendo mundos isolados.
Enfim abriu uma concha, examinou-a bem e arrependeu-se de tê-la aberto. Comprimiu-a entre as mãos, tentando fechá-la, mas quando a largou na areia ela tornou a abrir-se. Estava morta a ostra e não mais necessitava abrigar-se na concha, não tinha razão de fechar-se. Fora desvendada e por isso morrera. (...) Quando descobriu que era inútil lançou-a ao mar.
Daniel, na porta da cabana, espantou-se:
– Por que faz isso, Marcela?
Ria e lançava, fazendo pontaria nas aves assustadas, como se procurasse impedir seu vôo.
– Não quero mais ostras. Nunca mais comerei ostras.
Retirou a colcha da cama e deitou-se. Ficou muito tempo olhando para o teto, depois descansou os olhos no colorido da cortina. Abriu lentamente os botões da blusa, de cambraia azul, a que mudara antes do almoço, retirou-a do corpo, afrouxou a saia e sentiu apenas a calça apertando-lhe as coxas. Era preciso verificar em todo o vão da casa-grande que importância assumiria seu corpo despido. Importância para si mesma, para a casa, para o teto, a cortina, o chão de tijolos, a importância deste corpo para o silêncio, para o vento, para a ilha inteira.
A ilha está livre. Livre! Agora somos apenas Marcela, nos reintegraremos em seu corpo, dominaremos a ilha e o tempo da ilha. Sim, é chegado o momento da desangústia.
Passos sem passos, movimento sem movimento, sou em cada ave que, assustada, revoa, e no bater de asas lanço a Marcela meu chamado. Em pouco ela descerá.
Os homens que nos separavam jamais regressarão. Homens pequenos, seus gritos ecoaram e se perderam no mar. Jamais regressarão. (...)
Se alguém retornar aqui a ilha será tão imensa que o destruirá.
Sinto-me presa nesta ilha, cada centímetro dela é ha-bitada por papai e Roberto, entre mim e Saulo. Pai leva a noite inteira caminhando ou volteando a torre e Roberto não tem dormido nos últimos dias, parece que começou a temer a ilha. As últimas noites tem passado à porta da cabana, sen-tado no tamborete e fumando. Escuto a todo instante o cha-mado de Saulo, em cada som, e quando desço à praia vejo Roberto com os olhos parados em mim, assustado, como se também me temesse.
Se corro à fonte, pai vai atrás. Sempre eles aqui, ali. De dia é Roberto se arrastando por todo lado, riscando a terra com o pé. Temo seu silêncio, seus olhos parados em mim. Tornou-se um perigo permanente, é preci-so afastá-lo da ilha. Como? Somos três estranhos, três ini-migos, cada um temendo o outro. Mas eles não vencerão Saulo. Não suporto mais viver na casa-grande. É preciso afastar Roberto o mais depressa possível, e não sei como fazer.
Saulo é tão importante que está tomando conta de mim inteiramente. Nem posso mais entregar-me aos afazeres normais, auxiliar papai ou Roberto, que logo escuto seu chamado e corro sempre para ele. Vejo-o em todos os cantos da ilha, sinto-o em todas as partes de meu corpo, e espero que os mumbebos, de asas abertas, gritem do coral as horas que farão noite e possa correr para entregar-me a ele na praia. Já não importa que pai ou Roberto esteja ou não dormindo, já nem cuido que presenciem nossa posse.
Tal é a ânsia de Saulo por mim e de mim por ele, que o vejo em tudo na ilha. Impregnado na água do córrego, e quando por ela caminho sinto-o penetrando pelo meu cor-po. No toque de sinos que o vento provoca nas fendas dos picos ele me completa de sons que se materializam como se me beijasse os ouvidos, a boca, os olhos, os seios e os cabe-los, então sinto vontade de abrir-me ao vento e deixar que Saulo penetre inteiramente em mim.
Tenho que fazer este registro enquanto distingo pelo menos que o vento é ainda vento, o córrego é ainda córrego, o mar ainda mar, que as aves são aves ainda, porque se con-tinuar assim em poucos dias tudo será Saulo e não distingui-rei mais nada e nas páginas deste caderno só repetirei seu nome...
É frio e cinzento na ilha. Cresce o temporal e a ne-blina envolve tudo. A torre nem mais ilumina minha soli-dão. Será hoje a noite da desangústia. Resta uma ilha... e apenas o mar. Temo não me alcançar nunca mais.