SINOPSE

Décimo romance de Moacir C. Lopes, As Fêmeas da Ilha Trindade foi inspirado numa viagem que o autor fez a Trindade na década de 1950. Na ocasião, soube da história de um militar da Marinha que em 1942 teria enlouquecido depois de levar a mulher para morar com ele na ilha habitada apenas por outros 39 homens, algumas cabras, um burro e um bode.
Quando estreou na literatura (com o romance Maria de cada porto), Lopes nos falou dos alegres encontros dos marinheiros com as mulheres em cada lugar que desembarcavam. No romance agora publicado, ele nos fala de homens do mar que, em terra mas isolados, têm sua vida mudada pela chegada de uma mulher.
Maurício, o tenente que leva a esposa para Trindade, fora alertado sobre os problemas que poderia acarretar a presença de uma única mulher numa ilha cheia de homens que há meses não viam mulher alguma, mas era apaixonado demais por ela para deixá-la no continente enquanto servia em Trindade. Como previsto, a chegada de Maristela à ilha causa o maior alvoroço entre homens e animais.
As Fêmeas da Ilha Trindade se destaca na obra de Lopes como o único romance em que ele mesmo aparece como um personagem, que, ao embarcar para Trindade, teria recebido de parentes o pedido de notícias sobre um cabo da Marinha e sobre Maristela.
Moacir C. Lopes é autor de As fêmeas da
Ilha de Trindade; A ostra e o vento; Maria de cada porto; O Almirante Negro; Por aqui não passaram rebanhos; Onde repousam os náufragos e Guia prático de criação literária.
TRECHO DO LIVRO
Da lembrança daquela primeira guarnição inglesa, do cientista Edmund Halley, em 1700, além dos cabritos, car-neiros e porcos, restou como lembrança um príncipe euro-peu, que veio numa segunda tripulação, solicitada por Hal-ley, composta de cento e cinqüenta homens.
Por exílio imposto ou voluntário, se era inglês ou não, nenhum registro ficou. Sabe-se que ele, com uma princesa como pretendente a casamento, apaixonara-se por outra pes-soa, uma moça pobre, camponesa. Na impossibilidade de desposá-la, ou sequer vê-la, embarcou num dos navios da expedição Halley. Durante a viagem, isolou-se amarrado numa banqueta, bem junto do mastro de gurupés do barco, olhando para o horizonte, sem trocar palavra, alimentando-se apenas de água e bolachas. Ao desembarcar em Trindade, isolou-se nesta praia, sentado naquela pedra onde está o Comandante, olhando fixo para o mesmo ponto, durante trinta dias e trinta noites. Dizem que tinha visões constantes de sua amada saindo da Gruta de Nossa Senhora de Lour-des, acenando-lhe e voltando para o interior da gruta, e nes-sas alucinações ela lhe dizia que era prisioneira numa mas-morra semelhante e sem saída, e que só seria libertada se ele príncipe abjurasse publicamente o seu amor. Se abjurasse, ela seria livre como uma gazela nesta ilha, e que ele regres-sasse ao reino de onde viera e desposasse a sua prometida princesa. Se não abjurasse o seu amor, ela seria sugada pelo túnel e morreria com o corpo triturado por moréias gigantes. Ao fim de trinta noites, ele viu sua amada camponesa ace-nar-lhe gritando seu nome e caminhar para a Pedra da Ga-roupa e ser arrastada pelas duas moréias gigantes. Por isso, essa praia ficou conhecida como Praia do Príncipe.