“... fui visitado por um marinheiro, Moacir C. Lopes, residente no Rio de Janeiro. Conversou animadamente e tais coisas contou que lhe sugeri escrever um romance. Não há no Brasil romance nem livro parecido, escrito por um marinheiro legítimo. (...) Eis aí o primeiro romance de um marinheiro (Maria de cada porto), o inicial na bibliografia brasileira, romance autêntico, puro, bruto e lindo, vivido por um marinheiro entre marinheiros.”
Luís da Câmara Cascudo
“ ... Maria de cada porto, estréia de um jovem ex-marinheiro, romancista até debaixo d’água, um nome que ainda muito iremos ouvir, com certeza. Uma beleza de livro...”
Jorge Amado
“Bem diferente é a literatura de Moacir C. Lopes; não se trata de imitar nenhum autor novo europeu, trata-se de alguém com uma experiência vital a transmitir, seus personagens não vivem problemas artificiais e quase sempre tolos, são de carne e osso, nós os conhecemos e neles reconhecemos gente e povo.”
Jorge Amado
“Assim ‘de espanto’ (numa expressão que encontro no próprio livro) apareceu, já no fim do ano, o romance mais sugestivo de 1959 (Maria de cada porto), a revelação mais surpreendente, um estouro. (...) A técnica do romance é perfeita na distribuição do tempo
(...) um romance admiravelmente realizado.”
Raul Lima
“... uma novidade (Maria de cada porto), uma pungência, autenticidade sofrida, que já deixou de ser documento para ser em verdade material artístico genuino. Uma pureza de intenção, uma espécie de rebentar, de sair da terra como uma planta rebenta...”
Rachel de Queiroz
“Livro de mar (Maria de cada porto), com a narrativa de um grupo de náufragos que luta, durante cinco dias, contra a morte, tem um sopro de beleza e uma força descritiva que poucos livros brasileiros apresentaram nos últimos tempos.”
Antonio Olinto
“Moacir C. Lopes tem muita coisa a contar. Não como os narradores de histórias do mar, mas como um homem que muito viveu e amou o mar.”
Eneida de Morais
“É uma obra interessantíssima, com belo acento de autenticidade. Os diálogos são magníficos. Eles revelam um escritor com muitas qualidades.”
Ferreira de Castro Portugal
“Se ainda vale como julgamento favorável dizer que um romance foi lido de um fôlego, Maria de cada porto está consagrado. Pois ninguém pode interromper o tempo do livro, tempo de vicissitudes de um grupo de náufragos, espalhados em balsas, curtindo sede, fome e desespero. Nem o tempo que ficou para trás e que Delmiro vai recordando, amores por mulheres e navios, a rotina áspera de bordo, tipos curiosos ou incompreensíveis,
até a cadelinha que, um dia, se levou para o barco.
Desnecessário insistir na trama, que é excelente. Mais importante será ressaltar as virtudes do escritor estreante, de capacidade divinatória, redescobrindo a arte da composição, inventando o seu estilo. Conseqüência de tudo é a espontaneidade de um romance que se fez dentro do autor, tomou forma, cresceu e só podia mesmo desaguar em livro.”
M. Cavalcanti Proença
“Maria de Cada Porto” é, dentro de um critério específico de estilo, o nosso único romance do mar. “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, é mais um romance de marinheiros. O mar não lhe contagia nem poesia nem sortilégio. É tanto do mar quanto da caserna, do arsenal, da beira do cais. Somente por uma circunstância externa da vida de marinha ele permanece e cria expressão – o drama sexual possibilitado pela promiscuidade de bordo, que os intuitos naturalistas do autor pôs em evidência. A problemática do romance do sr. Moacir Lopes inclui o mar não apenas como ambiente, mas ainda como um elemento poético de ressonâncias vivas ora envolvente, prenhe de seduções e de mistérios, ora abissal, insano, com laivos de morte. (...) O sr. Moacir Lopes afirma-se ainda como romancista pela mestria com que procede à reversão do tempo como unidade poética, com que dispõe os planos numerosos da narrativa e move a ação, quer em perspectiva, quer em simultaneidade dentro do tempo, sem lhe modificar ou atenuar a unidade estética e a unidade psicológica.”
Braga Montenegro
“Não é possível comentar todo o livro de Moacir C. Lopes. O espaço não o permite. E, se fôssemos tomar todas as passagens belas, transcreveríamos “Maria de Cada Porto”. Lendo-o, sentimo-nos como diante de uma cachoeira. A água salta espontânea, bruta e linda. E refresca, e dá uma nostalgia não sei de quê, talvez de um brinquedo perdido, de um sonho que brinca de esconde-esconde, de um futuro que é como o horizonte no mar. Delmiro, Arigó, Divisor Comum, Já Morreu são personagens vivas. Vibramos com elas, desesperamo-nos com elas, com elas almejamos encontrar um porto seguro.”
M. L. Abreu de Oliveira
“O golpe de gênio romanesco (em Maria de cada porto) foi a idéia de trazer a cada instante um pedaço do passado para a realidade do presente, foi integrar na vida dos personagens e na consciência do leitor o passado e o presente, tal como ocorre na vida real. O tempo, neste momento, não é uma convenção cronológica, é uma atmosfera mental: em cada instante, os personagens e o leitor são simultaneamente tudo o que foram, são o que são justamente por terem uma dimensão definida no passado. Daí a rápida familiaridade que nos une a tantos figurantes; é que, como o narrador, já os conhecemos há muitos anos, já participamos das suas aventuras cotidianas, podemos, até, prever-lhes as reações, comportamento, a ação.”
Wilson Martins
“Maria de cada porto é um romance que merece ser lido, não apenas por suas páginas de elevado nível literário, mas também como homenagem
ao escritor que viveu sua história antes de escrevê-la.”
Leonardo Arroyo
“O romance (Maria de cada porto), depoimento de Moacir C. Lopes, é uma história de marinheiros, rude e poética, cheia de sustos e náufrágios, casos de homens simples, embarcados na grande aventura, por amor a ela mesma ou para fugir à miséria que os espera em terra firme.”
Elsie Lessa
“Nós, o pequeno grupo de professores e estudantes dos Estados Unidos, que estudamos e apreciamos a literatura brasileira, conhecemos primeiro A ostra e o vento, de Moacir C. Lopes. Em 1964, Raymond Sayers, na reunião da Associação de Línguas Modernas, em Nova York, afirmou ter sido o melhor livro publicado no Brasil naquele ano. A pequena resenha em Books Abroad falou desse romance como “imprescindível para os estudiosos da técnica do romance” e, na capa do mesmo, Jorge Amado referiu-se ao Moacir como “nosso romancista do mar”. Estimulados e surpreendidos pela sua poesia, imaginação e originalidade, começamos a ler toda a obra de Moacir e chegamos à conclusão de que todo o fundo de sua obra, toda a técnica e toda a razão de ser se encontra em Maria de cada porto (...) Um dos fortes de Moacir C. Lopes é o manejo do espaço e os cinco sentidos ressaltam em Maria de cada porto com viva força. Isso também tem certa ligação com a vida dos marinheiros, que passam muitos dias sem ver terra e, quando a vê, é com muita nitidez e com muita intensidade.”
Leo L. Barrow,
Universidade de Arizona, EUA
“Apontou-se assim (em Chão de mínimos amantes) uma visão de fado no romancista cearense (essa que dá o inelutável e dramático destino da terra, encontrando nas águas sua origem, seu meio, seu fim. Poderíamos ver nisso uma fixação do espírito sertanejo permanecida na alça de Moacir C. Lopes, tão funda quanto na alma de suas personagens rústicas. Os seres perdidos na região cearense, dominados pela seca, a terra escrava das águas...”
Virgínius da Gama e Melo
“Os ares secos e saudáveis do sertão nordestino (em Chão de Mínimos Amantes), deram-lhe mais vigor de estilo, mais segurança de forma e mais firmeza na exposição de um tema que, embora explorado no conjunto, é apresentado dentro de um ângulo de originalidade que nenhum outro escritor, talvez por conveniência ou temor pelas possíveis “interpretações perigosas”, até então abordara. (...) Escreva o que quiser, com qualquer cenário ou em qualquer ambiente, Moacir C. Lopes será sempre um romancista do mar.
Luís Luna
“Entre os ficcionistas brasileiros, novos ou velhos, Moacir C. Lopes ocupa hoje um lugar de evidente primeiro plano. (...) A ostra e o vento é o melhor, o mais maduro, o mais denso e forte romance de Moacir C. Lopes. A história de Marcela vai comover os leitores. Quanto a mim, outra vez senti a poderosa atração da humanidade desse romancista do mar, dos ventos soltos, dos sentimentos em tempestade. Mais uma vez senti a alegria do encontro com a literatura de Moacir C. Lopes.”
Jorge Amado
“... As parábolas já fazem parte integrante do cenário das letras e representam uma nova entrada da poesia na literatura e no teatro... o poético retoma o que é seu direito talvez como uma conseqüência da psicanálise, do conhecimento do inconsciente, da interpretação dos sonhos, etc. Kafka escreveu parábolas, como Cervantes o fez em seu D. Quixote... Ao Farol, de Virginia Woolf, é sutilmente evasivoquanto a esse aspecto e é interessante compará-lo ao A ostra e o vento... uma tese interessante poderia ser escrita sobre ele (Moacir C. Lopes) em relação aos tipos de parábolas que estão sendo escritas atualmente, a partir de Kafka, e passando por Joyce, Virginia Woolf, Camus, Golding etc., e no teatro... ao tipo de fantasia e melodia, ao da sombria imaginação existencial, ao da sanidade, ao da neurose...”
Jorge Elliot
Crítico chileno“A ostra e o vento tem toda a imensa poesia dos contos de fadas e, como eles, o real e o imaginário se intercalam em oníricas visões. Moacir C. Lopes faz da inverossimilhança, verossímil. Passado e presente se sobrepõem, mostrando, o autor, perfeito domínio do seu artesanato novelístico. Teve uma fábula com tão magna substância que o leitor nela fica envolvido e encantado.”
Michael Fody, III, USC - Los Angeles – EUA
“A Ostra e o Vento, de Moacir C. Lopes é um romance-rapsódia, impressionantemente belo. A nossa ficção recebeu com ele um presente lírico incomparável. A carreira desse romancista do mar tem um destino: marcha para as obras-primas. (...) O Ceará, particularmente, tem agora dois monumentos de lirismo: Iracema, de Alencar, e A Ostra e o Vento, de Moacir C. Lopes. Por outro lado, a Floresta e o Mar estão ligados por estas duas criações geniais. Iracema e Marcela. Os críticos do futuro poderão estudá-las em conjunto.”
Abdias Lima
“Quando o cineasta Walter Lima Júnior decidiu adaptar “A Ostra e o Vento”, do cearense Moacir C. Lopes, sabia que estava de posse não só do melhor escrito que a literatura do mar ofereceu, como, por igual, do melhor romance que se produziu nestes últimos trinta anos. Largado de qualquer processo convencional, a escritura da Ostra, do ponto de vista técnico, oferece diversas cláusulas e alternativas de leitura. Fica, então, combinado que o escritor deve ter “navegado” em Proust, Joyce, Virginia Woolf, Poe, Faulkner, Carpentier, ou em Ayala, além dos clássicos, para, finalmente, deixar sua marca indelével no universo literário. Certo? Some-se todo esse laboratório com a experiência do cinema. Porque nesta pequena ficção (tem a espessura de O Velho e o Mar) seu arquiteto substitui do ponto de vista, monopolizado, tradicionalmente, por um único narrador. De tal modo, quebra a hierarquia, a ordem e a importância de determinados personagens, estabelecendo – independentemente de suas posições morais e ideológicas – completa isonomia. E, mais do que extinguir heróis, promove uma curiosa justaposição de focos particulares, de cada um dos sujeitos da trama, possibilitando, por si só, o deslinde do destino deles. Aí, necessariamente, procede cortes, descontinuidade, mudanças de planos visuais, chegando, muitas vezes, a engolfar os fluxos de consciência, que, se não resvala para o completo desgoverno, causando um impasse quanto aos rumos do processo narrativo, instaura, em dado momento, uma realidade virtual, abstrata, mas, contraditoriamente, carregada de intenso realismo. (...) O mais interessante é que, se esse processo inusitado de fabulação, mantido, aliás, por rigoroso controle físico e estético, é exercido na mais pura verossimilhança – e se essa pausibilidade figura como pura criação artística – parece certo o fato de que Moacir C. Lopes contribuiu decididamente para a compreensão da novíssima literatura contemporânea, adotando algo inaugural, sem repetir qualquer modelo...”.
Durval Aires Filho
“Saulo torna-se uma constante angústia para José e subverte também o cotidiano num terceiro homem, Roberto, que, chamado para substituir o velho Daniel, vem conduzido para um final trágico que não dispensa nenhuma das personagens da ilha.
O romance começa com a chegada de um navio à Ilha dos Afogados. Daniel acompanha o grupo de homens enviados pela Capitania do Porto para investigar sobre o apagamento do farol na noite passada. Os homens do navio encontram uma ilha deserta e o farol danificado. Daniel acha o diário de Marcela entre as pedras e inicia a folheá-lo vivendo às avessas imagens da própria vida passada na ilha, olhando essas através dos olhos e das emoções da garota. Encontra o nome de Saulo nas páginas do diário e daquele momento em diante o mesmo torna-se, também para Daniel, uma presença inquietante, acompanhando-o até o fim. Com o aproximar-se da noite o capataz do navio resolve voltar para o continente com o intento de retornar à ilha ao amanhecer para procurar Marcela, José e Roberto. Daniel fica para cuidar do farol e da ilha.
A estrutura do romance é bastante complicada. Há quadro narradores: o diário de Marcela; Saulo que, na sua não-fisicidade, assume na fantasia da garota os traços do vento; Daniel (que volta à ilha depois de ter ido embora); e um narrador extra-diegético que dá começo ao romance. Quatro vozes que já se enlaçam nas primeiras cinco páginas e que continuam entrelaçando-se em todo o texto, seguindo um movimento circular. Uma circularidade que se acrescenta ao longo do romance. As quatro vozes são focos narrativos analisando por diferentes ângulos e alturas (no caso de Saulo) os acontecimentos da ilha”.
Gian Luigi De Rosa
“Diversos fatores influenciarão Marcela a criar Saulo. Dentre eles temos: o amadurecimento sexual de Marcela e a ausência de jovens para desfrutá-la; a imaginação da menina fértil, alargada pelos ensinamentos de Daniel; a ilha, que no romance é a própria Marcela.
Assim sendo, Marcela cria em sua mente um homem que será chamado de Saulo. Porém, Saulo transcende a sua forma e passa a ser habitante e passageiro do vento. Deixamos claro que, mesmo exteriorizado, Saulo continua sendo parte de sua criadora. A presença de Saulo na ilha modificará todo o ambiente, criando um certo mistério e um certo clima psicológico na ilha.
Influenciada por Saulo, Marcela concretiza uma certa traição a José, seu pai, e a Roberto. Quando estes se encontram no mar, durante uma tempestade, Marcela apaga o farol. José e Roberto, conseqüentemente, não retornam à ilha. Esta traição de Marcela e Saulo tem como objetivo permitir que a “noite da desangústia”, na qual este se reintegraria ao corpo daquela, aconteça. Porém, durante o encontro esperado, com a escuridão cobrindo a ilha, Marcela recusa Saulo. Ela tenta, então, salvar seu pai e Roberto e acaba sendo destruída. Todavia, Marcela passa a assombrar a ilha, em forma de espírito, com seu cheiro de manjericão. Temos, então, ao invés de uma união de Saulo e Marcela no corpo desta, uma certa união entre tais personagens na categoria de espírito, ambos passando a assombrar a ilha.
Daniel, que retorna à ilha para tentar entender o que aconteceu nesta, encontra-se, no romance, em um tempo diferente do de Saulo e Marcela. Daniel assistirá aos acontecimentos, guiado também pelo diário de Marcela. E morrerá ao pé da torre de farol “com as mãos estendidas na direção da luz”.
Marcos Vinícius Teixeira
“Essa liberdade e esse infinito do mar, mas também o seu tumulto e o seu tormento, é o que vamos encontrar no último romance (Belona, latitude noite) desse marinheiro-romancista Moacir C. Lopes, que se tornou famoso em sua estréia com Maria de cada porto. E, agora, com a sua admirável Belona, latitude noite, já em segunda edição, realiza possivelmente sua obra-prima. Na linha das velhas lendas medievais e renascentistas do ciclo dos “navios fantasmas”, essa sua epopéia do velho e desarmado Belona II é um extraordinário panorama da vida e da morte...”
Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima)
“Tenho para mim por certo que Moacir C. Lopes faz parte da primeira fila dos nossos romancistas vivos, na mesma linha de frente de um Lúcio Cardoso ou de um Adonias Filho, de uma Clarice Lispector ou de um Jorge Amado. (...) Tudo isso me ocorre – e não é pela primeira vez; e já o escrevi mesmo, se não me engano – após a leitura do quinto romance publicado por Moacir C. Lopes: Belona, Latitude Noite. O melhor de todos eles? Provavelmente. Creio mesmo que sim. Mas, parece-me, no caso colocado, não é bem isso o que realmente tem importância e, sim, o fenômeno global: o romancista, extraordinário romancista que é Moacir C. Lopes.”
Octávio de Faria
“Em Belona, latitude noite existe um aparente tempo cronológico: dois dias no porto de Belém e dois dias no mar, antes da tempestade, e referências a acontecimentos históricos concomitantes ao relato ficcional. Mas, o que existe é um ritual simbólico em que o sino, ao marcar as ações, é apenas uma ilusão de tempo, posto estarem todos perdidos na existência e, portanto, fora das delimitações temporais. Ora, se como já se viu anteriormente, o navio é o próprio ser à deriva, a tempestade se constitui no marco em que reconheceram os antes a fugacidade da existência e, por conseguinte, seu desligamento, não só do tempo, mas do mundo, porque este há muito deixou de existir. No momento em que o ser reconhece-se desgarrado da essência, como ocorrera com Joana, em Perto do coração selvagem, Eduardo, em O encontro marcado e com o narrador de Vaca de nariz sutil, o tempo desliza para o nada, ou seja, para o transcendente, onde só existe o presente, a esperança, o sino sem sineiro.
Assim, a tempestade é a passagem da inconsciência à consciência, do tempo aparentemente mensurável para um eterno presente que, indiretamente, é o mergulho em um estado poroso, indefinido. O papel da aparente cronologia é proporcionar uma impressão de simultaneidade das vidas flutuando no mar-existência, sem norte, porque guiados por uma bússola sem ponteiro e colocados em um navio sem leme. Destarte, os fragmentos das vidas, aparentemente, se recompõem, mas permanecendo sempre à deriva, sempre na esperança de que alguém capte sua mensagem de amor, capaz de reconstruir uma nova humanidade.
O fracasso do homem está, sobretudo, na impossibilidade de se lhe desvelar a essência. Quando o ser se liberta do tempo e da entidade a que fora reduzido, a existência em humanidade já não é possível. Libertar-se do tempo é ingressar na eternidade da morte. O homem, em Belona, latitude noite, sob esta interpretação, é um ser incurável, possível unicamente na esperança que lhe sobrevém após seu ingresso na eternidade do tempo.”
José Fernandes
“Na obra de Moacir C. Lopes, este romance (o quinto) (Por aqui não passaram rebanhos) representa antes a culminação de um processo, não só por ser uma realização de alto nível literário mas porque atinge uma síntese criativa de grande poder dramático, tanto na caracterização de personagens como no desenvolvimento da trama. Belona, Latitude Noite situa-se dentro da segunda fase (ou ciclo) de seus romances, iniciada com A Ostra e o Vento (1964) e continuada em Por Aqui Não Passaram Rebanhos (1972).
Há entre os romances dessa fase algumas linhas convergentes, uma recorrência de temas e motivos constantes. O principal deles é a anulação do tempo real, instaurando-se em conseqüência um clima fantástico no qual se movem os personagens, geralmente limitados por um espaço bastante restrito (ilha, em A Ostra e o Vento; navio, em Belona, Latitude Noite; o perímetro das Sete Cidades, em Por Aqui Não Passaram Rebanhos). Em todos esses lugares o tempo deixa de existir em termos de sucessão cronológica, passando a marcar apenas a vivência psicológica dos personagens. Assim, p. ex., tempos diversos ora se superpõem (A Ostra e o Vento), ora se alternam (Por Aqui Não Passaram Rebanhos). Neste último, o processo é radicalizado, fazendo que Emiliano se desencontre sempre de Selene e do velho Sumé. O tempo, que rege toda a trama, nunca é fixo, cronologicamente falando, variando de duração a cada instante.
Em Belona, ao contrário, o tempo não varia, é simplesmente anulado a partir do embarque dos refugiados de Grapuassu. Até aí, vinha sendo bem demarcado e nítido: o dia do início da viagem em Belém do Pará, os pontos da costa, por onde ia passando o cargueiro, cuidadosamente anotados pelo Comandante Lúcio. Mas sobrevêm a peste e a tempestade: e eis o tempo dissolvido numa noite permanente, símbolo da morte que se espalha pelo navio. O cargueiro vagueia sem achar porto e sem que o tempo real transcorra, imóvel, embrionário.”
Fernando Py
“Agora é a vez de Por Aqui não Passaram Rebanhos, romance de tessitura mágica-telúrica-latino-americana. Inspirado na ambientação, já em si algo fantástica, das “Sete Cidades do Piauí”, os personagens dessa narrativa parecem fantasmas vindos do passado-futuro, navegando dentro de uma cosmovisão onde o Tempo é um círculo perfeito (ponto de ligação com “A Ostra e o Vento”) – Um “círculo hermético” talvez. São guerreiros e reis petrificados que vivem em cidades talvez para sempre perdidas – e encontradas somente por Emiliano, o personagem. Há um indisfarçável clima bíblico nessas páginas: a Criação do Mundo segundo a consciência mítica-nordestina de seu autor. São fantasmas que caminham – “monstros em transição” – talvez mutantes de uma paisagem miserável e maravilhosa. A solidão e aridez lunar dentro de nós. Nossa juventude continua curtindo mui justamente, aliás, os livros de Herman Hesse. Se ela chegar a “descobrir” Moacir C. Lopes vai descobrir um autor que fala a sua – a nossa? – linguagem.”
Flávio Moreira da Costa
“Uma das chaves para a perfeição artística de A ostra e o vento de Moacir C. Lopes é o uso imaginativo de símbolos. Há três constelações de símbolos na obra: os que têm a ver com coisas que se abrem ou se fecham, os que indicam círculos, e os que tratam de tempo ou intemporalidade. Dentro da obra, essas três constelações são vistas como um todo integral e poético.”
Leo L. Barrow,Arizona - EUA
“Este mundo, transfigurado pela magia do mar, pela magia do marinheiro Moacir C. Lopes, alcança neste Cais, saudade em pedra, dimensões líricas e sobretudo oníricas como dificilmente não hão de encontrar iguais em qualquer ficção, e não apenas na ficção brasileira. O chamado realismo mágico (esse poder de encantação e de iluminação da existência sem o falso recurso de sésamos ou abacadabras, antes pela cumplicidade com o fantástico e o mistério oculto nas coisas e nas criaturas) encontra aqui a sua expressão mais acabada, como se de repente nos fosse dado olhar a realidade ou o que parece a realidade através de um olho mágico, pregado não mais numa porta mas na nossa própria testa. O que aparecia como o cotidiano revela-se para sempre insólito. (...) Tantos e tantos outros momentos que fazem deste extraordinário romance de Moacir C. Lopes um iluminado e luminoso painel da triste e desesperada aventura humana – da cada vez mais maravilhosa aventura humana.”
Campos de Carvalho
“Embora se misturem em “Cais, saudade em pedra” o real e o imaginário, o relembrado e o acontecido a cada dia, amalgamando-se sonho, ficção e delírio, embora, muitas vezes, não se possa distinguir entre o que de fato se processou apenas na mente do herói escapado do mar e o que de fato ocorreu sobre as águas ou em terra, nem por isso é marcado o romance por um clima de irrealidade ou prejudicado por qualquer indicação de criação arbitrária, puramente fantasista. Ao contrário – e nisso nos parece residir o mérito maior do romancista – apesar dessa mistura do real com o possivelmente irreal, os dramas de cada personagem, a se somarem no drama coletivo de numerosos seres, são-nos comunicados com toda a força de realidade quase palpável, densos, convincentes, altamente pungentes.”Dias da Costa“Em Moacir C. Lopes, o que é inocultável é a sua comunhão com o mar, com os elementos. Sim, mas há outra coisa mais e que este livro de agora (A Ostra e o Vento) deixa bem patente: é a volta sistemática do homem à consciência de seu corpo, ao prazer físico, o próprio espírito encontrando a razão nele. Não é a outra concepção que se chega depois de ler esta narrativa estranha, mas cheia de força lírica, que se passa numa ilha deserta, a dos Afogados. (...) Outro emprego feliz no livro é o do tempo. O autor soube combinar com maestria as coisas presentes com as passadas. Aliás, a reconstituição destas que se faz intercaladamente.”Temístocles Linhares “Recriando (Em Por Aqui não Passaram Rebanhos) a lenda de Pai Sumé – personagem fantástica da nossa proto-história, que teria aparecido entre os índios e lhes ensinada a agricultura, mas, desiludido dos homens, desaparecera sem deixar vestígios – Moacir C. Lopes constrói uma alegoria cujo núcleo central parece ser a idéia do tempo como ”círculo hermético”, de acordo com a expressão de Flávio Moreira da Costa na apresentação da contra-capa. (...) Selene é a própria Pandora – a primeira mulher da mitologia – e Emiliano, Epimeteu, que, ao desposá-la, abre a caixa dos males dela e com eles povoa toda a terra. Como na lenda grega, depois desse ato fatal, nada mais resta senão a esperança, que se exprime pela aspiração de Emiliano de elucidar o mistério que o cerca e arrebatar definitivamente Selene àquele clima de encantamento – aspiração que redundará na sua derrota final, pois se escravizará definitivamente àquela entidade, reencarnado na figura de Sumé.”
Rui Mourão“Não é fácil, isto é que é, apreender a visão de mundo deste romancista conterrâneo de Alencar. De qualquer modo, o mar é quase sempre o ambiente em que se agitam as suas personagens. O mar com seu mistério, seus abismos insondáveis, perpetuamente se movendo e sempre idêntico a si mesmo (metáfora maior do inconsciente e das paixões humanas). Quanto a suas personagens, são seres com uma forte pulsação interior. (...) Assim, Luciano Papallemos, protagonista e passageiro desta Nau Catarineta (...) empreende, ao longo do romance (O passageiro da Nau Catarineta), uma viagem em busca de suas próprias origens, onde o espera a Felicidade (Praia Fortuna) ou a Morte.”
Jayro José Xavier
“Nada é palpável neste livro (O navio morto e outras tentações do mar). O que parecia referência memorialista se transforma em sobrenatural, aos poucos, irresistivelmente. Personagens corriqueiros se revelam tão absurdos quanto as assombrações que povoam os contos. De fato, quebram-se as fronteiras entre o ser humano e suas tentações: tudo escorre, como os movimentos das marés.”
Luiz Antonio Aguiar
“Não é gratuitamente que Moacir C. Lopes já virou tese de doutorado nos Estados Unidos e sua obra circula com desenvoltura pela Europa, sobretudo pelos países de língua eslava. Seus romances merecem a aura que ostentam, apesar da circulação acanhada que sempre tiveram em nosso país, a se considerar o alto valor de sua literatura; mas é nos contos onde o ficcionista esbalda seu gênio inventivo. Impregnado de mar, saturado das coisas marinhas, o escritor confere ao veleiro um animismo de alta tensão onde o minotauro homem/navio reinventa o mundo e cria suas próprias leis. O Navio Morto e outras Tentações do Mar é uma coletânea de nove contos, onde o barco e o mar são personagens salientes. (...) Poético até na construção do que convencionamos considerar incestuoso, como seja a relação carnal entre irmãos, lírico nos grandes painéis trágicos como ocorre com a história que dá título à coletânia, Moacir C. Lopes está distante do trivial da literatura cometida neste país. Mesmo Joseph Conrad e Lack London, que dedicaram uma generosa fatia de suas obras para os assuntos do mar, conseguiram erotizar o mar de forma tão apropriada como Moacir C. Lopes. Que, quando mergulha no mórbido ou mesmo no maligno ou no obsceno e cruel, o faz com uma adequação poética tão carregada de simbologia que deixa o leitor em estado de graça.
Ubiratan Teixeira
“A identidade de Saulo (em A ostra e o vento) apresenta um problema para o leitor porque ele jamais é visto pelo leitor ou por qualquer dos personagens, com exceção de Marcela. Suas relações com Marcela são semelhantes às de um deus que ama um ente mortal que precisa ser destruído, isto é, feito imortal para que o deus seja capaz de possuí-lo. No entanto, por ser Saulo uma projeção da mente de Marcela integrada no vento, engendrado por seu desejo, ele sente que é vitalmente associado à existência dela, e necessita tê-la integrada a si mesmo para que possa ser livre da ilha (que, para ele e para Daniel é outra manifestação de Marcela). No entanto, devido à força da projeção, Saulo não cessa de existir enquanto Marcela existir, e é cada vez mais marcante sua permanência na ilha. (...) Existe na obra de Moacir C. Lopes algo de aperfeiçoamento e força conturbada de um Kafka ou um Borges. Pela maneira especial como combinou vento, noite e tempo em suas obras, ele produziu um efeito especial: horror à eternidade em Belona, Latitude Noite, caos interior e exterior em Cais, Saudade em Pedra, e a angústia da opção de uma atração e conflito entre um mortal e um deus em A Ostra e o Vento.”
Winnifred H. Osta, Arizona, EUA
“Saulo é a projeção de Marcela lançada no vento, engendrado pela sua angústia. Dora Elias (professora brasileira) entende Saulo como “a projeção e continuação da própria Marcela. E o desejo insatisfeito que busca sublimação na fantasia”. Como o vento, Saulo representa a eternidade. “O vento é o mesmo, eternamente o mesmo e vento” (A Ostra e o Vento, p. 3). Sendo o vento, Saulo pode transportar Marcela de sua mortal situação de isolamento. Mas, para isso, ela terá que transpor uma sombra (desaparecer da visão dos outros mortais), para poder reaparecer de alguma forma integrada no espaço e no tempo. A primeira indicação da existência da “sombra” ocorre no encontro entre Saulo e Marcela. Ela penetra num estado de encantamento quando Saulo, num barco, à distância, não responde a seus acenos. Encara a sombra da dúvida de que ela não está existindo para ele, nem ele para ela. O romancista brasileiro explicou essa reflexão de Marcela como representação novelística da teoria de espaço-tempo. Numa carta a Winnifred Osta, em 1969, ele falou de uma viagem a Trinidad, quando avistou no horizonte a imagem de um navio: “Ao primeiro impacto interpretei como um choque do sol com o vapor do mar e a interferência das nuvens, mas eu já era sonhador naquele tempo, à noite voltei a analisar o problema e interpretei o fato como o encontro, por uma fração de misésimo de segundo, entre mim e a “memória” de um navio que teria passado por ali centenas de anos antes de mim”. Mas Moacir chega à conclusão de que esse encontro foi real. O que representaria uma comunicação que se cruza através de centenas de anos, uma integração da seqüência de dois tempos que se encontram numa experiência totalizada. (...) Assim, Marcela terá que atravessar outra espécie de sombra: a sombra do tempo. E isso ocorrerá, na visão de Saulo, como narrador, na travessia da última noite, “a noite da desangústia”
David A. Foltz,
Illinois, EUA
“O projeto literário de MOACIR C. LOPES, a sua série de oito romances até aqui publicados, lidos e reeditados, premiados e filmados, constitui hoje um dos pontos mais altos da ficção brasileira. A experiência do escritor na Marinha brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, a sua percepção objetiva dos problemas brasileiros, a sensibilidade que põe no trato da condição humana, a escolha de temas adequados à cultura nacional e a invejável capacidade de exprimir tudo isso numa escrita elegante e moderna, fazem da sua obra a de maior coerência temática e estilística da atualidade. E fazem do escritor um fiel servidor de seu tempo (de nosso tempo), como o comprova a sua excelente atuação na presidência do Sindicado dos Escritores do Rio de Janeiro.”
Gilberto Mendonça Teles
“Quando as pessoas perguntam o que me fez rodar A Ostra e o vento, o belo e misterioso romance de Moacir C. Lopes, o que vem à minha cabeça é: cinema, a possibilidade de criar um universo que é onírico e real ao mesmo tempo devido à autenticidade da imagem. Que desafio contar a história de uma menina que tem o vento como amante através de um filme! É um momento em que o artista vê sua própria alma revelar-se. Ainda mais com um texto desta qualidade.”
Walter Lima Jr.
Prezado Rod Sheldon, New York: eu acho que os senhores Spirer and Kerr escreveram um belo escript sobre A Ostra e o vento. Ele é altamente literário, bastante cinematográfico e promete ser um filme memorável. Acho que se você atrair uma espécie de elementos (diretor e/ou, um ou mais grandes astros), seremos capazes de realizar um filme fora do comum. Em sua sensibilidade e beleza, é um script extremamente delicado e espero que seu impacto na realização será acrescido grandemente pela inclusão de importantes diretor e astros”.
Peter Saphier,
Vice-Presidente da
Universal Pictures,
Hollywood, CA, EUA.
Carta de Peter Saphier a Rod Sheldon, de 20 de agosto de 1972